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Há 20 anos, o inesquecível 2001

Há 20 anos, o inesquecível 2001

Memórias de um ano que foi marcante em muitos sentidos
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Em 2001 eu tinha liberdade pra fazer tanta coisa pela primeira vez na vida que isso, por si só, já torna este ano especial na minha memória. Como já havia escrito ano passado, na 1ª versão da minha newsletter Mondo, eu estava naquele que seria meu primeiro “maior” emprego da carreira. Era professor e coordenador da Escola 24 Horas, uma daquelas novíssimas empresas exclusivamente online, “pontocom”, do início da internet aqui no Brasil. Tinha um bom salário, trabalhava muito e bem, com bons colegas e alguns poucos que se tornaram amigos para a vida. Foi lá também a primeira vez que usei conexão de banda-larga, já que, em casa, a gente só usava o telefone depois da meia-noite, e olhe lá. Só isso já era uma atração à parte, apesar de ter que estar de pé todos os dias às 4h, para começar a trabalhar às 6h!

O fato de ter uma conexão de internet de alta velocidade no trabalho era algo irresistível: foi um convite para incontáveis horas de downloads no Kazaa. Gigas e mais gigas de músicas fresquinhas em mp3, baixadas num sopro e armazenadas num “zip drive”, se é que você aí ainda lembra o que era isso. Em casa, todos os arquivos eram devidamente ripados e queimados num CD-R, já que, no ano anterior, eu mesmo instalara um drive de CD-RW no meu computador para fazer exatamente isso. Isto é, gravar meus próprios CDs caseiros, que eram a versão anos 2000 das atuais playlists. E, admito, All For You, da Janet Jackson, estava dentro daquele zip drive. Essa foi a música top em boa parte de 2001, segundo a Billboard. Mas, não ficou de fora Beautiful Garbage, o terceiro disco do Garbage, uma das prediletas da casa! E que belo disco! Se você quiser entender informalmente sobre a produção de um disco e pegar aqueles detalhes sonoros, ouça Garbage e, ao mesmo tempo, leia o verbete da Wikipedia sobre qualquer álbum da banda, nas seções que tratam da gravação do mesmo. No disco citado, você vai descobrir, por exemplo, que na música “Parade”, a introdução que parece feita com teclados, algo meio synth, é, na verdade, a sobreposição de uma guitarra acústica com outra elétrica. Que engenhosidade! E isso em 2001, soando atual (como os discos da banda) até hoje. Quando qualquer obra ou expressão artística chega nesse ponto, de se tornar expressivo e marcante mesmo décadas depois, para mim é sempre algo notável.

Ter uma conexão de internet de alta velocidade no trabalho era algo irresistível: foi um convite para incontáveis horas de downloads no Kazaa.

Isto posto, eu estava num momento de cultivar uma grande coleção de CDs, com mais de 300 naquele tempo, comprando uns dois discos por semana — geralmente na finada Fnac (!) ou no site do Submarino, que levava boa parte do meu salário na época. Condom Black, do Otto, era meu disco favorito. Um álbum que tinha uma temática que tratava de espiritualidade e orixás na mesma sentença, com altos toques de eletrônica e uma composição sonora sofisticada. Não por acaso, foi indicado ao Grammy Latino de “Melhor Álbum Pop Contemporâneo em Língua Portuguesa” no ano seguinte. Infelizmente, não levou (perdeu para o Falange Canibal, do Lenine, outra porrada). O disco do Otto, aliás, havia sido lançado pela Trama, uma gravadora que fazia um trabalho admirável com o marketing de seus artistas e lançamentos caprichados. Ao mesmo tempo, quando ainda não existiam as redes sociais, seu site era um dos mais interessantes para quem gostava de música independente no início dos anos 2000.

E, já que comecei falando de liberdade no início deste texto, a música era apenas um dos itens do meu cardápio de cultura pop em 2001, já que foi um dos anos em que mais fui ao cinema na vida. Sem dúvida alguma. Era uma ida por semana, com algumas poucas em que fui tanto no sábado, quanto no domingo. O Senhor dos Anéis (check!) Hannibal (check!); Vanilla Sky (check!). Este último, por Cameron Crowe, o cara que dirigiu um dos meus filmes favoritos dos anos 90, Singles – Vida de Solteiro (1992). Vanilla Sky, que manteve por aqui seu título original (ainda bem!), é um filme enigmático, instigante e divertido que vale ser visto ainda hoje. Visualmente bastante engenhoso, mas foi indicado ao Oscar apenas pela canção original, do Paul McCartney, que não levou o prêmio (foi para Monstros S.A.).

2001 foi um dos anos em que mais fui ao cinema na vida. Era uma ida por semana, com algumas poucas em que fui tanto no sábado, quanto no domingo.

Mas, não posso esquecer de um dos melhores daquele ano: Hedwig and the Angry Inch (Hedwig – Rock, Amor & Traição), que conta a história dramática, porém divertida, de um rockstar alemão (da antiga Alemanha Oriental) que precisa lidar com seu relacionamento com um americano e sua questão de gênero. Continua bastante atual hoje, com a questão LGBTQIA+, mas na época passou em pouquíssimos cinemas e não havia a menor vontade que essa temática tivesse qualquer visibilidade. Ao menos por aqui. Mas o filme é ótimo e tem uma trilha sonora original de arrasar!

Ainda nos cinemas, não posso deixar de citar aquele famoso menino bruxo, o Harry Potter. Um personagem tão onipresente até hoje e que, em 2001, estreava seu primeiro filme mundialmente, cheio de extravagâncias e arrecadando mais que qualquer outro filme naquele ano. Assisti, mas fui na companhia de uma ex-namorada. Eu, apenas reconheço a relevância cultural desse personagem: acredito que tenha, para a Warner, o mesmo valor que um Star Wars tem para a Disney. Ou quase isso. Porém, é inegável que Harry Potter, o livro e o filme, são produtos icônicos desses últimos vinte anos que vimos surgir no final dos anos 90 e prosperaram naquele início dos anos 2000. A atenção que os filmes desse personagem seguem recebendo das empresas ligadas à Warner, mesmo depois de dez anos do último deles lançado, confirma isso, como o destaque visto no streaming HBO Max.

ipod-say-hello 2001; anúncio do iPod de 2001
Divulgação/Apple

Naquele início dos anos 2000, eu já era viciado em filmes, só que filmes ou séries por streaming ainda eram coisas de sci-fi, tal como nos contos do Philip K. Dick. A gente mal havia saído da era do VHS e as locadoras de vídeo, espaços que eu adorava e frequentava a cada semana, fechavam de vez. O hype daquele momento era o DVD, um formato que começava a ganhar força e aparecer aqui no Brasil. Como lá em casa passamos a usar bem pouco o videocassete, eu comprei meu primeiro DVD Player ainda em 2001, o Gradiente D-10. Não sei se foi o primeiro a ser lançado aqui, mas foi um dos primeiros que vi nas lojas — e o mais acessível. Começava, pois, uma nova mania: a coleção de DVDs de filmes. Tive vários, por volta de 200 deles, mas com o passar dos anos e as mudanças — de casa, de vida, de desejos — a coleção diminuiu até que não comprei mais e ainda tive que me desfazer de praticamente todos eles.

Naquele início dos anos 2000, filmes ou séries por streaming eram coisas de sci-fi tal como nos contos do Philip K. Dick.

Hoje, só me sobraram os da série Sexta-Feira 13, sabe-se lá porquê. Mas eu tive tantos e tão variados, que poderia alugar! Ou, montar uma estante pra aparecer atrás de mim nas reuniões pelo Zoom! Lembro que, a cada mês, eram ao menos meia dúzia de filmes novos chegando na estante. Vinham das mais variadas lojas online ou de visitas aos shoppings e até da Amazon americana. Meu cartão de crédito estava sempre on fire, algo que dificilmente acontece hoje com certas coisas que já não fazem mais sentido. Além disso, para quê comprar filmes ou mesmo discos atualmente, com tantos serviços de streaming surgindo a cada semana, não acha? Eu quero só ter acesso, não quero manter — embora ache fascinante quem coleciona vinis ou filmes em Blu-Ray com devoção. Só que, para mim, esse tipo de coisa não faz mais tanto sentido e tudo certo.

Agora, apesar daquele emprego citado no início do texto, 2001 foi um ano meio atípico nos meus horários, mas eu tinha, sim, diversão garantida. Por acordar de madrugada e ainda fazer jornada dupla por dois ou três dias na semana (ou seja, voltando pra casa no fim da tarde ou à noite), eu tinha uns dois dias livres depois das 15h. O que significava que eu aproveitava para jogar alguns games de PlayStation — outro saudável vício — com meu irmão mais novo. Winning Eleven era o favorito disparado e quase só jogávamos isso. Ficou mais conhecido como Pro Evolution Soccer (ou apenas “PES”) anos depois, mas o nome em japonês era o que vinha nas capas toscas quando se compravam os games na feira da Uruguaiana, no Centro do Rio. Sim, pirata, já que nem o PS1 era oficial por aqui e acabei comprando o meu lá mesmo anos antes — assumo, sem ser politicamente correto…

Por acordar de madrugada, eu tinha uns dois dias livres depois das 15h, o que significava que eu aproveitava para jogar alguns games de PlayStation.

Hoje em dia, não faria mais isso porque a gente não precisa, na verdade. Tudo é mais simples, prático e sempre é possível comprar qualquer novo gadget aqui mesmo, ou viajando ou via importação. Mas em 2001 tudo era bem diferente nessa questão: o próprio PlayStation 2, lançado no ano anterior, só estava disponível no exterior, por cerca de 300 dólares. Aqui, até era possível encontrar na mesma feira do Centro do Rio, por cerca de US$500. Ou seja, querendo ou não, era dessa maneira ou era algum esquema com conhecidos que viajavam a Miami ou que trabalhavam em companhias aéreas.

pro evolution soccer playstation 1 2001; imagem do game PES de 2001.
Pro Evolution Soccer no PlayStation 1 (Konami)

Ainda falando de tecnologia, o primeiro iPod é também um produto de 2001 e era quase como se uma nave espacial fosse descoberta na Terra. Tratado como objeto de desejo e um produto “elegante” pela mídia em geral, lembro que, ao menos para mim, era mesmo um artigo de luxo. Era inacessível, com preço acima dos 1.500 reais, num momento em que a Apple mal era alguma coisa aqui no Brasil. E para poucos (só fui ter um, o Shuffle, baratinho, anos depois, em 2005).

E por falar em música, em 2001 tivemos um novo Rock In Rio, só que foi o mais estranho até então. Dez anos depois do marcante festival de 1991, a gente via Oasis, R.E.M., Britney Spears e *NSYNC pela primeira vez! Mas, houve também um boicote de boas bandas nacionais (O Rappa, Cidade Negra, Skank etc) que exigiam, com total razão, o mesmo tratamento, estrutura e igualdade de condições dos estrangeiros. Por conta disso, os artistas brasileiros eram apenas os “medalhões”, como Barão Vermelho, Ney Matogrosso e Alceu Valença, entre outros, já que as boas bandas do momento, no seu auge, se retiraram do evento. Eu não fui no RiR, por conta dos meus horários nada convencionais (embora estivesse doido para isso na época). Mas, para compensar, ganhei a coleção completa de discos do R.E.M., numa promo da então poderosa America Online, patrocinadora do festival e da qual eu era assinante. Época em que a empresa tentava ter, aqui no Brasil, o mesmo domínio e relevância que tinha nos Estados Unidos, onde era aquele colosso chamado AOL Time-Warner.

rock in rio 2001; banner original do Rock In Rio 2001.
Divulgação/Rock In Rio

Por fim, em uma frase, 2001 foi marcante, ao menos para mim. Pela liberdade financeira de um bom trabalho, pelas descobertas tecnológicas, pela facilidade de acesso a uma infinidade de coisas que, até então, não eram tão fáceis, nem simples na década anterior. Por marcar uma nova e vibrante etapa na minha vida profissional e pessoal — o que não é pouco e já o tornaria um ano memorável.

Nossa, eu teria ainda muito mais para lembrar de 2001. Não foi um ano tão feliz para o mundo, em geral, por conta dos atentados terroristas de 11/9. Não foi tão feliz para quem sempre gostou de música aqui no Brasil e via uma de suas cantoras favoritas, a Cássia Eller, partir naquele final de ano esquisito. Só que, acho que não… Eu fico aqui com os bons momentos, as melhores memórias e o que a nostalgia traz de bom, que é aquela sensação de reviver o que se viveu de melhor, no passado.✖️

© 2021 Alexandre Bobeda


Bônus

Algumas coisas que gosto e que me fazem lembrar desse ano de 2001

Preparei uma playlist no Spotify com minhas músicas favoritas de 2001. Todas essas foram baixadas, na época, em aplicativos como o Kazaa. Mas hoje, por mais que o Spotify ou mesmo o Deezer não sejam o melhor para os artistas, é uma forma justa de remunerá-los pelo trabalho.

Uma lista dos melhores games de 2001, de acordo com o site Metacritic. Concordo com boa parte dela:

metacritic video games 2001; metacritic
Metacritic

E também mais uma lista, no Letterboxd, com 25 dos meus filmes favoritos de 2001. Por ordem de preferência, mas recomendo todos eles!

Letterboxd 2001 filmes alexandre bobeda
Letterboxd

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